A arte de suavizar um cocktail molotov

Há coisas que, em Portugal, só são graves quando convém. E há palavras que só aparecem quando não incomodam ninguém. “Terrorismo” é uma delas. Vive em regime de utilização seletiva, cuidadosamente reservada para os suspeitos do costume, com o selo ideológico certo e a indignação devidamente autorizada.

Por isso, quando um indivíduo decide lançar um cocktail molotov para uma multidão onde estão crianças, bebés e jovens e há pessoas a sair de lá com gasolina no corpo, o país respira fundo, olha para o lado e decide: isto foi… um incidente.

Um incidente. Como quem tropeça num passeio ou deixa cair um copo de vinho numa festa.

Convém, então, fazer aquilo que hoje em dia parece quase subversivo: chamar as coisas pelo nome. Terrorismo não é uma opinião política nem um rótulo de conveniência. É, na sua definição mais básica, o uso de violência contra civis com o objetivo de causar medo, intimidar e impor uma agenda ideológica. Não exige um exército, nem uma organização sofisticada, nem sequer uma conferência de imprensa a reivindicar o feito. Exige apenas intenção, alvo civil e violência.

Ora, um engenho incendiário lançado para uma multidão civil, num contexto de confronto ideológico, preenche estes requisitos com uma clareza quase desconfortável. Mas desconforto, como sabemos, não dá jeito a toda a gente. E quando não dá jeito, rebatiza-se. Suaviza-se. Torna-se tudo mais digerível. Um “incidente”.

Se o protagonista tivesse outro enquadramento político, a conversa seria diferente. Já estaríamos a discutir “radicalização”, “ameaça à democracia”, “crescimento do extremismo”. Haveria especiais televisivos, especialistas em segurança e uma urgência coletiva em perceber como é que chegámos aqui. Mas como não é esse o caso, opta-se pela anestesia semântica. Nada de palavras fortes. Nada de conclusões incómodas. 

O problema é que a realidade não muda só porque decidimos descrevê-la com mais cuidado. E quando começamos a classificar a gravidade de um ato violento em função da ideologia de quem o pratica, deixamos de ter critérios, passamos a ter preferências.

E isto não é uma defesa de um lado contra o outro. Grupos neonazis que promovem violência, intimidação ou perseguição devem ser tratados com a máxima seriedade e enquadrados dentro das mesmas categorias quando os seus atos o justificam. A violência ideológica não tem cor política exclusiva. Não é património da direita nem da esquerda. É, simplesmente, violência.

Mas é precisamente por isso que a consistência importa. Ou chamamos terrorismo a ataques contra civis independentemente de quem os pratica, ou então estamos apenas a gerir narrativas com mais ou menos jeito.

Há ainda um detalhe particularmente desconfortável: isto aconteceu numa Marcha pela Vida. Um evento pacífico, legal, onde estavam famílias inteiras, crianças incluídas, a exercer um direito básico numa democracia. Pode-se discordar da causa, criticar o movimento, contestar as ideias. O que não se pode, ou melhor, o que não se devia poder, é responder com fogo.

 Mas aparentemente pode-se. Desde que depois se chame “incidente”.

Talvez o verdadeiro problema não seja a falta de definição. É a falta de coragem para a aplicar de forma igual. Porque chamar as coisas pelo nome implica assumir consequências e isso, pelos vistos, continua a ser mais perigoso do que um cocktail molotov atirado para uma multidão.

E esse, curiosamente, é o único “incidente” que quase ninguém quer discutir.