A molotov não caiu do céu
No dia seguinte ao ataque à Marcha Pela Vida estava frustrado com o silêncio dos media portugueses. Surgiu-me, então, a ideia de tentar fazer com que o ataque fosse reportado nos media internacionais, para depois criar mais pressão para que a história fosse reportada.
Lembrei-me de enviar uma mensagem a um amigo meu americano a explicar o sucedido. Ele é muito pró-ativo, e suspeitei que conseguisse fazer chegar a notícia às pessoas certas. Depois de falarmos, ele fez-me chegar uma print screen de uma mensagem que me pôs a pensar. Dizia o seguinte:
“Os cocktails Molotov costumam surgir quando as coisas descem ao mais baixo nível. Quando todo o diálogo se esgota e o objetivo se torna claro. Os cocktails Molotov não são uma arma dos governos, mas das pessoas comuns. Isso diz-me que os lados estão já claramente definidos.”
Os lados estão claramente estabelecidos. Há lados, é verdade. Ou seja, este ataque não foi simplesmente uma decisão espontânea de um lunático que, por acaso, lembrou-se de incendiar crianças e bebés no dia da marcha. Esta molotov não caiu do céu. Na verdade, ela surge como a manifestação mais evidente do conflito moral que tem vindo a ser deflagrado na nossa sociedade há décadas. Um conflito que, até hoje, foi sempre enquadrado como uma divergência de opiniões normal numa sociedade pluralista e democrática, mas que, na verdade, é algo bem mais profundo e que pode, inclusivamente, se revelar perigosíssimo para a própria democracia.
As democracias ocidentais foram construídas para sociedades plurais, onde as pessoas têm visões diferentes sobre o mundo. Neste contexto, quem é o Estado para impor sobre as outras pessoas uma verdade? A solução a que se chegou é que o Estado devia funcionar como uma espécie de “árbitro” neutro que garante apenas que todas estas visões diferentes possam conviver. A ideia é que, através do debate livre, a sociedade possa ir descobrindo a verdade.
Mas hoje sabemos que estas regras, por si só, não bastam. Uma sociedade não se sustenta apenas com leis e procedimentos. Estas sociedades plurais funcionavam porque as pessoas partilhavam de um chão comum. Concordavam no essencial, antes de discordarem nas políticas. Todas elas partilhavam de uma mundivisão comum, fruto do Cristianismo, e viam o mundo sobre a mesma lente. O Estado neutro não precisava de defender nenhuma verdade.
O problema é que já não discutimos apenas sobre políticas públicas. Hoje discutimos a própria realidade. Já não conseguimos concordar sobre o que é o corpo, a liberdade, a família, a vida humana, ou a justiça. Agora eu pergunto-te: e se um grupo de pessoas começa a acreditar que o Estado e as leis vigentes são formas ilegítimas de opressão? Achas que estas pessoas vão simplesmente aceitar as regras e obedecer? Ou vão fazer os possíveis para transformar ou até destruir a própria sociedade?
O lado “progressista” percebeu há muito tempo que desapareceu este chão comum. E se não há chão comum, o debate deixa de ser suficiente e passa a ser necessário lutar pela imposição de uma visão sobre o Homem e sobre a realidade. Foi isso o que levou ao progressismo falar a linguagem da tolerância enquanto ocupava, ao mesmo tempo, os lugares de formação moral da sociedade (como a escola, a cultura, os meios de comunicação, etc.) enquanto trabalhava para deslegitimar os seus adversários e empurrá-los para fora do espaço público respeitável.
A molotov foi apenas a expressão mais crua e honesta desta lógica: deslegitimar, silenciar, envergonhar e excluir todos os que defendem os valores “conservadores”. Quando durante anos se age como se a presença de certas pessoas no espaço público fosse intolerável, não podemos ficar surpreendidos quando se passa para a intimidação física e violência.
Então, o que podes fazer? Começa por aceitar uma coisa desconfortável: não há neutralidade. Nunca houve. Se passas a vida a evitar tomar partido, estás no fundo a tomar o partido pelo lado que está a ganhar.
Agora, tomar lados não é responder com violência. É estar presente. Saber o que se passa na escola dos teus filhos. Conhecer o teu autarca. Apoiar as pessoas, as instituições e os projetos que estão a tentar manter de pé aquilo que vale a pena. É preciso ter coragem para dizer o que se pensa quando custa dizê-lo, e não só quando é seguro. E é importante que faças tudo isto sem ser preciso esperar que apareça um líder carismático para te dizer o que fazer.
A civilização que herdaste não apareceu sozinha, mas foi construída por pessoas que pagaram um preço por ela, e vai continuar a exigir esforço para se manter ao longo do tempo.
Nuno Marques Afonso
06/04/2026
Dia de S. Pedro de Verona
“Vigiai, sede firmes na fé, sede corajosos , sede fortes”.