Deus não tem partido (mas alguns insistem)
Há um fenómeno curioso a acontecer em Portugal, em alguns setores da Igreja Evangélica e, com menor intensidade, também em círculos católicos, começou a instalar-se a ideia de que o Evangelho tem partido político. Mais ainda: tem nome próprio, slogan, líder e, em certos púlpitos mais entusiasmados, quase uma auréola.
Convém começar pelo óbvio, que às vezes se perde no entusiasmo: a Bíblia não nos manda votar em partidos. Não há versículos escondido em Romanos a dizer “votarás neste ou naquele”. O que a Bíblia faz e fá-lo de forma bastante clara, é estabelecer princípios morais e éticos que informam a consciência do cristão. E esses princípios, goste-se ou não, criam limites.
Por exemplo, é teologicamente coerente afirmar que um cristão não pode apoiar programas políticos que defendem o aborto como direito, o casamento entre pessoas do mesmo sexo como redefinição da família, a ideologia de género como doutrina educativa ou a diluição da autoridade parental em nome do Estado. Aqui não estamos a falar de simpatias partidárias, mas de antropologia bíblica. E nesse ponto, sim, a esquerda em Portugal como noutros países, afasta-se claramente da cosmovisão cristã.
Daí resulta algo importante, mas menos espetacular do que um comício: um cristão, em consciência, votará tendencialmente à direita. Não por amor ao mercado, nem por alergia a impostos, mas porque certas linhas não são negociáveis. O salto lógico e teológico, acontece quando se transforma essa conclusão num exclusivo partidário. Entre PSD, CDS e Chega, não há nenhuma base bíblica que permita afirmar que apenas um deles representa os valores cristãos. A Bíblia não canonizou programas eleitorais, nem ungiu líderes partidários. Não existe dogma, encíclica ou confissão de fé que diga: “fora deste partido não há salvação”.
Aliás, convém lembrar algo desconfortável, o Evangelho não se encaixa em quadrantes políticos de forma absoluta ou perfeita. Critica a esquerda no relativismo moral, mas também critica a direita quando confunde poder com virtude, autoridade com infalibilidade ou ordem com ausência de misericórdia. Jesus nunca pediu maioria absoluta, pediu conversão.
O perigo de colar o Evangelho a um partido é duplo. Primeiro, porque transforma a fé numa arma de campanha. Segundo, porque quando o partido falha, e todos falham, arrasta consigo a credibilidade da mensagem cristã. E depois admiram-se que as pessoas confundam cristianismo com ideologia. É perfeitamente legítimo um cristão votar no Chega, no PSD, ou no CDS. O que não é legítimo, nem honesto, é dizer que quem não o faz está a desobedecer a Deus. A Igreja não é um comité eleitoral e o púlpito não é um palco de campanha.
O Evangelho não precisa de ser defendido por partidos. Precisa de ser vivido por cristãos com discernimento e humildade. Porque, ao contrário do que alguns parecem acreditar, o Reino de Deus não vai a votos.
Felizmente!