O Casamento não é um "Super-Namoro"
E se a maioria dos portugueses começasse a acreditar que um amigo é apenas alguém que te pode dar coisas em troca? Quantos mais benefícios alguém te dá, melhor amigo é. O que achas que acontecia?
Não é difícil imaginar que as pessoas teriam dificuldade em ter amizades verdadeiras. Provavelmente, ficariam mais sozinhas e desiludidas com as relações que criavam. Algumas até achariam que a “amizade” era uma coisa má, talvez até algo antiquado e supérfluo.
Esta mudança de definição ainda não aconteceu com a amizade. Mas aconteceu com o casamento. Hoje achamos que o casamento é apenas a “união de duas pessoas que assumem o compromisso de se amarem e se cuidarem romanticamente”. Mas isto está errado e esta definição traz muitos problemas para a nossa sociedade.
Neste artigo, vou-te explicar os problemas desta definição, qual é a definição correta de casamento e porque é que o casamento é politicamente relevante.
Mas qual é o problema da definição moderna de casamento?
Para perceberes o erro da definição moderna de casamento, tens de entender que existem dois tipos de definições. Primeiro, as Definições por Realidade referem-se às coisas que existem na Realidade. Um irmão é sempre um filho dos mesmos pais de alguém. A definição de irmão depende de um facto biológico e não pode ser alterada por decreto do Estado. As Definições por Realidade são descobertas e não inventadas.
Depois tens as Definições por Convenção. Estas referem-se a convenções que inventámos por utilidade. Por exemplo, um litro de água hoje define-se como o volume que 1 quilo de água ocupa em certas circunstâncias. Mas se todos decidirmos que o litro passa a ser o dobro do tamanho, a definição muda. É apenas um acordo social útil. As Definições por Convenção são inventadas.
Nós não podemos tratar uma Definição por Realidade como se fosse uma Definição por Convenção. Eu posso querer muito que um quadrado seja “uma figura geométrica com três lados”, mas isso não muda o facto de estar a definir um triângulo. E o problema é que as más definições têm consequências. Se o verdadeiro significado do casamento estiver ausente na nossa cultura, vai ser difícil haver bons casamentos.
O casamento é uma Instituição Natural. Ou seja, existe na realidade mesmo antes de qualquer lei. Mas a grande falha da definição moderna é nem tentar fundamentar-se na própria realidade. Em vez disso, trata o casamento como se fosse apenas uma convenção social. Consequentemente, o casamento torna-se completamente arbitrário e, eventualmente, deixa de fazer sentido.
Podes achar que estou a exagerar, mas vamos olhar para as três normas básicas que toda a gente associa ao casamento: a monogamia (serem só dois), a exclusividade sexual (ser fiel) e a permanência (ter a intenção de ser para a vida toda). Mesmo hoje, a maioria das pessoas concorda que o casamento deve ser isto. O problema é que na definição moderna estas três características deixam de ter qualquer justificação lógica e passam a ser totalmente opcionais.
Vejamos a definição moderna de novo: “união de duas pessoas que assumem o compromisso de se amarem e se cuidarem romanticamente”. Em que é que consiste esta “união”? A maioria das pessoas dirá que é uma espécie de união emocional, uma "união de corações e mentes". Agora, se o casamento é um encontro de almas e sentimentos, porque é que deve estar restrito apenas a duas pessoas? Não há nada na natureza do amor ou das emoções que te impeça de amar mais do que uma pessoa de cada vez. O limite de dois parceiros é apenas um preconceito sem fundamento nenhum. Quem és tu para dizer que 3 pessoas não se podem amar da mesma forma que 2 pessoas?
Agora, se o casamento é uma união romântica, porque é que isso exige exclusividade sexual? Se uma pessoa consegue continuar a amar a sua parceira “de alma e coração”, porque é que ela não poderia ter relações sexuais casuais com outras pessoas? Se os dois (ou três) “casados” se sentem bem com isso, a exclusividade pode ser algo opcional. A fidelidade torna-se apenas um preconceito herdado da tradição. Ninguém exige a um amigo que tenha apenas um “melhor amigo”. Porque é que haveríamos de exigir ao nosso parceiro de casamento que só tenha um parceiro sexual?
Além disso, não há qualquer razão para o casamento ser para a vida toda. As minhas emoções mudam, e posso deixar de estar unido emocionalmente a uma pessoa. Eu nem controlo bem as emoções que sinto. Porque é que haveria de me comprometer a estar unido emocionalmente a alguém a vida toda?
Se o casamento não é necessariamente monogâmico, exclusivo e permanente, o que é que é? Para quê casar? Porque é que o Estado haveria de ter qualquer interesse numa espécie de “super-namoro”? Não há “leis da amizade”, pois não? Porque é que há leis do casamento.
Estes problemas resolvem-se todos quando abandonamos a definição moderna de casamento e redescobrimos aquilo que o casamento é verdadeiramente.
O que é o casamento?
O casamento é a união integral de um homem e uma mulher cuja natureza está orientada para a procriação e educação de filhos.
Parece que estou a forçar a definição que eu quero, não é? Mas vais ver que esta definição se sustenta a si própria porque descreve a realidade como ela é. Se tentares definir o casamento sem ser desta forma, vai ser como dizeres que um triângulo é uma figura geométrica com quatro lados.
Vamos começar com o significado de “união integral”. Uma união integral une o ser humano em todas as suas dimensões: mente, coração e corpo. Num casamento, os dois estão unidos nos planos e compromissos (mente), nos afetos e sentimentos (coração) e até biologicamente (corpo). Sim, biologicamente.
Qual é a única função biológica que o ser humano não consegue fazer sozinho? Um ser humano consegue respirar sozinho com os seus pulmões, colocar o sangue a circular só com o seu coração, mas não consegue reproduzir-se com o seu órgão sexual. Biologicamente, o homem e a mulher são incompletos e só se tornam num “organismo completo” quando se unem sexualmente. É realmente só no ato sexual que os dois se tornam “uma só carne”.
Por isso, consegues perceber imediatamente porque é que a definição exige que eu esclareça que esta união só acontece entre um homem e uma mulher. Dois homens ou duas mulheres podem praticar atos de cariz sexual, mas nunca se conseguirão coordenar para uma função biológica comum. Também fica logo excluída qualquer hipótese de o casamento ser poligâmico: a reprodução acontece a dois, não a três nem a quatro.
Isto fica ainda mais claro se olharmos para o facto desta união ter de ser integral. Integral significa completo, total. Para uma união ser total, tem de ser exclusiva. Tu não te podes dar “totalmente” a duas pessoas ao mesmo tempo. Se o ato sexual é o que confirma esta união, fazê-lo com outra pessoa é quebrar a própria natureza do compromisso.
Além disso, para ser integral, esta união pede que as pessoas se entreguem para a vida toda. Se dizes “amo-te com todo o meu corpo e alma”, mas acrescentas “enquanto isto estiver a correr bem”, estás a guardar uma parte de ti (o teu futuro) para ti próprio.
Vês a diferença para a outra definição? Aqui, as três normas básicas de um casamento surgiram naturalmente como consequências lógicas da própria essência do casamento. Estamos a descobrir o que é o casamento, não a inventá-lo.
Agora vamos para o facto de a natureza do casamento estar orientada para a procriação e educação de filhos. Quer isto dizer que o casamento não pode acontecer entre casais inférteis? Não. O que eu quero dizer é que este tipo de união tem essa finalidade. Não quero dizer que a união deixe de existir se essa finalidade não se cumprir. Por exemplo, podemos concordar que uma equipa de futebol tem a finalidade de ganhar jogos, certo? Se um grupo de amigos se juntar e fizer uma equipa, sabendo que nunca vai ganhar um jogo, deixa de ser uma equipa? Claro que não! O que define uma equipa não é o resultado no fim do jogo, mas o facto de estarem em campo a cumprir as regras do jogo. Do mesmo modo, o que define o casamento é praticarem o “tipo” de ato sexual que está orientado para a procriação, não o resultado desse ato. Um casal homossexual, por mais que se amem, não consegue realizar esse ato sexual, ou seja, está a jogar outro jogo diferente.
Finalmente, é precisamente o facto de o casamento estar orientado para a procriação e educação dos filhos que o torna politicamente relevante. O Estado não quer saber das amizades que tens, nem dos teus “super-namoros”. Mas tem de se preocupar com o bem-estar das próximas gerações. Todos nós queremos que os portugueses cresçam em casamentos estáveis e saudáveis. As leis do casamento não são o Estado a querer meter-se na cama de um casal, é o Estado a preocupar-se com o futuro do seu país. Proteger o casamento e a sua definição verdadeira é uma questão de sobrevivência nacional.
Concluindo, quando ignoramos a realidade natural do casamento, transformamo-lo num capricho emocional. Não estamos a “expandir o amor” nem a ser mais abertos. Estamos a destruir o casamento. E os sintomas estão à vista: em 2024, 60% das crianças nasceram fora do casamento.
Cabe-nos a nós ter a coragem de rejeitar esta convenção e voltar a abraçar a realidade. Pelo bem dos nossos amigos, dos nossos cônjuges e, acima de tudo, dos filhos que hão de vir.
Nuno Marques Afonso
07/02/2026
Dia de S. Ricardo
“Por isso, o homem deixará o seu pai e a sua mãe e unir-se-á à sua mulher e serão como uma só carne”
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