O impacto da agenda woke nas séries e filmes


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Introdução


Vamos deixar uma coisa muito clara desde já: não vamos banalizar o termo “agenda woke”. Nem tudo é agenda woke; nem tudo é “forçar a barra”. Essa sensação constante de exagero que muitas pessoas têm é, na verdade, uma das consequências do próprio wokismo, e é algo que deve ser travado com a mesma seriedade que a própria agenda woke.


Produções pré-woke e o impacto nas pessoas


Antes de entrarmos a fundo no impacto da agenda woke nos filmes e nas séries, é importante relembrar como as coisas eram antes do chamado “advento woke”. E, dentro do universo cinematográfico e televisivo, há um exemplo incontornável, não só pelo impacto real dessa agenda, mas também pelo sentimento de amor e ódio que hoje divide os fãs: a Disney.

Comecemos pelos clássicos da Disney que marcaram a infância, a adolescência e até a vida adulta de muitas pessoas. Eu sou de 1993 e não consigo pensar na minha infância sem lembrar de filmes como O Rei Leão. Um verdadeiro clássico que nos ensinou o ciclo da vida: tudo tem começo, meio e fim, às vezes de forma dura, como na cena em que Simba perde o pai. Quem não se lembra desse momento?

Além disso, o filme transmite uma lição poderosa: não podemos fugir do nosso papel. Simba foge, tenta esquecer quem é, mas acaba por regressar, porque aprende que fugir não resolve. Esse tipo de mensagem tem impacto real. Quando somos crianças, aprendemos lições valiosas através dos desenhos animados, e essas histórias ajudam a moldar o nosso caminho.

E nem precisamos falar das músicas icônicas desses filmes. É quase certo que, ao ler “O Rei Leão”, alguns de vocês começaram a cantar mentalmente uma música ou até foram procurá-la no YouTube. Se não foram, mas ficaram com vontade, aqui fica:

Versão do Brasil

Versão de Portugal

Mas, em nome da agenda woke, vamos usar a Branca de neve como um exemplo em que já naquela época existiam produções com personagens femininas fortes, com valores claros e lições profundas. Ainda assim, há quem reduza a história à ideia simplista de que Branca de Neve “espera por um homem que a salve”. Essa leitura é deturpada e extremamente superficial, talvez até preguiçosa, da mensagem que o filme realmente passa.

Branca de Neve transmite uma mensagem muito mais profunda: o bem gera o bem, e só conseguimos oferecer ao mundo aquilo que carregamos dentro de nós. O príncipe não “resolve a vida” da personagem; ele restaura a ordem que foi quebrada pelo mal. Hoje, Branca de Neve tornou-se “problemática” não por ser antiquada, mas por lembrar algo que muitos preferem esquecer: caráter importa mais do que discurso.


A avalanche Woke


Se antes as produções cinematográficas eram feitas com o objetivo de transmitir uma mensagem construtiva e sempre com uma pergunta central: qual é a mensagem do filme? Hoje, em muitos casos, a agenda woke parece mais preocupada em impor uma ideologia ao público do que em contar uma boa história ou transmitir valores universais.

Não precisamos ir longe para encontrar exemplos. Usemos novamente Branca de Neve, na versão de 2025, protagonizada por Rachel Zegler. Se você não acompanhou a polêmica, aqui está uma das entrevistas que geraram forte reação do público.

O resultado foi previsível: não só conseguiram manchar a imagem de uma das obras mais icônicas da Disney, como também alcançaram uma das piores avaliações da história do IMDb - nota de 2.2 no momento em que escrevo este artigo, lembrando que chegou a ser ainda mais baixa no lançamento. Importante frisar: essa avaliação vem do público, voto popular, e não de críticos profissionais. Tudo isso ao custo de algo entre 270 e 400 milhões de dólares, dependendo da fonte. Ironicamente, esse montante teria um impacto muito mais real se fosse destinado, por exemplo, a ajudar mulheres que vivem no Irão e que de facto enfrentam opressão, repressão e morte.

É difícil apontar com precisão quando essa mudança começou. Se hoje temos Branca de Neve como símbolo recente, já em 2015 (há mais de uma década) surgiu um marco importante com Star Wars: The Force Awakens. Foi ali que uma parte significativa do público percebeu uma mudança clara de paradigma numa franquia clássica. Não tanto pelo que o filme diz explicitamente, mas principalmente pelo que ele abandona silenciosamente.

Na trilogia original (1977–1983), Luke Skywalker é um herói incompleto e falível. Ele foge, erra, perde e aprende que o poder exige disciplina, treino e sofrimento. Aprende também que o mal não é estrutural, mas moral e pessoal, e que a redenção é possível. Em The Force Awakens, isso muda radicalmente. Rey demonstra habilidades avançadas na Força, no combate e na pilotagem sem qualquer arco de aprendizagem. Ela simplesmente é poderosa, sem explicação narrativa consistente. O problema está na ausência total de construção, esforço e consequência, somada à facilidade com que supera personagens experientes.

É aqui que mora o verdadeiro erro. Muitos críticos tratam o debate como se a insatisfação do público fosse apenas uma rejeição à troca de um protagonista masculino por um feminino. Usando a clássica falácia do espantalho, acusam quem critica a agenda woke de discordar de forma rasa ou preconceituosa. Mas a questão é muito mais profunda: trata-se da destruição dos valores que antes eram transmitidos às novas gerações.

Durante décadas, a cultura cinematográfica ensinou valores claros à juventude. Mostrava homens e mulheres honrados, que não se dobravam facilmente, que cuidavam dos seus e também dos outros. E o mais importante de tudo, que seus valores eram inegociáveis. Vender-se era sinal de fraqueza, falta de caráter, ausência de escrúpulos. As histórias ensinavam que as dificuldades surgem com força, mas que o essencial é levantar, persistir e lutar novamente. Vencer pela resiliência e não desistir à primeira queda.

Quem não se lembra do discurso inspirador do Rocky Balboa?

Uma das partes mais importantes dessa mensagem é quando Rocky diz: “Quando as coisas dão errado, você começa a procurar alguém para culpar…” Hollywood já entendia isso em 2016. Em algum momento, porém, perdeu-se no caminho.

E agora, de forma claramente opinativa, afirmo: o maior perigo da agenda woke é o discurso vitimista. Meus caros, entendam algo essencial para a vida: se todos nos sentarmos à mesa e começarmos a listar os nossos problemas, sempre encontraremos alguém para culpar. Sempre haverá um A, B ou C responsável por tudo o que deu errado. Mas isso não muda absolutamente nada.

Culpar os outros pode trazer conforto momentâneo, mas não traz solução. Nada muda. As pessoas podem até ter culpa, mas insistir nisso não constrói nada. O caminho mais difícil - e o único que gera resultados - é olhar para os próprios erros e falhas, mesmo que pareçam menores do que os dos outros. Corrigir os próprios erros transforma. Apontar os dos outros, não.


A realidade dos números


Vamos falar de números? Mas antes disso, vale uma pergunta: por que o conservadorismo insiste tanto na ideia de valores inegociáveis? Porque sabemos que só é possível confiar verdadeiramente em pessoas (ou instituições) que não têm preço e não negociam as suas crenças conforme o vento sopra.

A cultura woke é apenas mais uma forma de instrumentalização das massas. Sei que o termo pode parecer forte, mas vamos aos fatos.

Já vimos que 2015 pode ser considerado um primeiro grande marco dessa mudança cultural. É claro que é possível encontrar exemplos anteriores, mas de forma muito mais sutil. E, sendo coerente com uma abordagem conservadora, prefiro dar o benefício da dúvida e trabalhar com marcos claros.

É a partir desse momento que o “jogo” começa a virar. Grandes empresas (e aqui falo de forma opinativa, mas com a percepção clara de que a Disney liderou esse movimento) passam a adotar a cultura woke como regra. Afinal, quem não jogasse esse jogo corria o risco de ser cancelado. E não se enganem: a esmagadora maioria das empresas não escolhem lados ideológicos. Elas escolhem onde o dinheiro está. Simples assim.

A partir de 2015, seguir a cartilha ideológica tornou-se uma forma aparentemente segura de garantir espaço, boas críticas e bilheteria. As críticas vinham, mas de um lado que não boicotava nem cancelava. Já do outro, havia sempre o risco de ruína financeira. Mas a vida é cíclica. Dez anos depois, em 2025, essa mesma cartilha entregou à Disney um dos maiores fracassos da história recente do cinema, além de um dos piores lançamentos de um grande estúdio.

A bilheteira do filme ficou em cerca de 206 milhões de dólares. Isso significa um prejuízo estimado entre 63 e 263 milhões de dólares, dependendo da fonte. E isso sem contar o dano à marca da Branca de Neve e à própria imagem da Disney. O contraste torna-se ainda mais evidente quando comparamos com o live-action de O Rei Leão, que arrecadou cerca de 1,6 bilhões (mil milhões) de dólares, com um orçamento estimado entre 250 e 260 milhões. Ou seja, mais barato do que Branca de Neve.

Vários portais noticiaram que, após a vitória de Donald Trump e a sua postura declaradamente anti-DEI (Os departamentos de Diversidade, equidade e inclusão criados durante este período), a Disney e outras gigantes americanas começaram a recuar nos seus departamentos ideológicos, tentando reencontrar um equilíbrio para uma audiência mais ampla. 

Isso aconteceu por causa de Trump? Sinceramente, não sei. Não vou afirmar que sim nem que não, porque não tenho como provar. Mas posso dar a minha opinião.

Imaginemos a seguinte situação: tenho uma empresa habituada a investir entre 250 e 270 milhões de dólares por produção e a obter receitas entre 750 milhões e 1,6 bilhões (mil milhões). Uma mudança cultural começa a gerar críticas e aplausos. No início, nada acontece. Mas, com o tempo, produtos considerados “seguros” (como Branca de Neve) deixam de faturar três a seis vezes o valor investido e passam a gerar prejuízo. O que essa empresa deve fazer? Não é preciso ser um gênio para perceber que a mudança precisa ser revertida.

Agora, se nesse mesmo momento surge a oportunidade de fazer essa correção e, ao mesmo tempo, transferir a culpa para outra entidade, temos um cenário perfeito. A empresa muda de rumo, volta a lucrar valores astronómicos e ainda consegue agradar dois públicos: aos que pediam a mudança, ela entrega; aos que não queriam, transfere o ódio para outro alvo e diz que foi forçada a agir.

Os dois parágrafos anteriores são a minha leitura opinativa dos factos. Não é nenhuma genialidade nem uma grande revelação. É apenas lógica básica. A Disney não tem lado político. A Disney quer lucro.

Posso ir ainda mais longe: nos últimos anos, muitos filmes da Disney passaram a transmitir a ideia de que o protagonista nunca é responsável pelos próprios erros, sendo apenas uma vítima da sociedade. Curiosamente, agora vemos a empresa aplicar a mesma lógica a si própria. A culpa não é dela; é da administração Trump, que estaria pressionando e “obrigando” uma mudança de rumo, mesmo que, por pura coincidência, esse novo rumo volte a ser altamente lucrativo. (P.S.: este parágrafo contém ironia.)


Conclusão


A minha conclusão é clara como a neve: a esmagadora maioria das empresas seguirá sempre aquilo que acredita gerar mais lucro, sobretudo os grandes conglomerados. Isso pode soar mal a alguns, mas não é, por si só, algo negativo. Empresas existem para lucrar, e isso faz parte do jogo.

A Disney adotou a cultura woke como cartilha porque houve pressão para isso. Parte do público pediu ativamente, outra parte manteve-se em silêncio até perceber o que realmente estava a acontecer. Mas não somos defensores do totalitarismo, e é importante deixar isto claro: a “guerra” não é contra a Disney enquanto empresa. É contra a cultura, ou melhor, contra a tentativa de imposição cultural.

Dito isto, precisamos de ter atenção a algo que considero essencial: a inclusão é importante. (E sim, esta é a parte em que alguns, se não fossem um Viriato de verdade, começariam a arrancar os cabelos e a correr em círculos, me chamando de esquerdista).

Vocês já assistiram The Chosen? Para quem não conhece, é uma espécie de Paixão de Cristo em formato de série. Nela, Mateus (um dos apóstolos) é retratado como autista. Historicamente, isso nunca foi afirmado. Trata-se de liberdade poética dos produtores. E ainda bem que o fizeram. A abordagem é leve, natural e profundamente humana. A luta do personagem para compreender as relações humanas, para além da representatividade, ainda traz  uma perspectiva completamente nova para a história de Jesus e provavelmente ajudará muitos autistas a compreenderem melhor.

Já ouviram falar da série Bom dia, Verônica? É uma série da Netflix, baseada no livro do Raphael Montes. A protagonista é uma mulher. O seu amigo mais próximo é um homem homossexual. A filha também. E os homens mais poderosos da história? (Peço desculpa pela expressão) um conjunto de canalhas sem escrúpulos. Ainda assim, nada disso é forçado. Já li um outro livro do autor e essa abordagem mais crua, por vezes até desconfortável, é quase uma assinatura dele. Concordo com todas as mensagens da série? Não. As relações da Verônica, na minha opinião, não passam um recado positivo, sobretudo tendo em conta a força do personagem. Mas, no geral, é um excelente exemplo de inclusão bem feita, com mulheres fortes e personagens diversos, sem militância artificial.

Para terminar, deixo um recado claro: a cultura woke empurrou muitas produções para um caminho horrível, destruindo obras e forçando uma ideologia irreal. Mas não podemos cair no mesmo erro do outro lado. Nem rotular tudo como woke, nem desprezar pautas legítimas só porque foram apropriadas e distorcidas.

A inclusão é importante. E termino com um exemplo simples: ao longo deste texto, sempre que utilizei a palavra “bilhão”, acrescentei entre parênteses “mil milhões”. Fiz isso porque sei que, em Portugal, o termo pode gerar confusão. Isto também é inclusão, mas feita de forma natural, sem imposição. Se posso facilitar a vida de quem me lê, por que não o faria?


Referências


https://deadline.com/2025/03/snow-white-box-office-preview-1236329918/

https://www.the-numbers.com/movie/Disneys-Snow-White-(2025)#tab=summary

https://www.the-numbers.com/movie/Lion-King-The-(Live-Action)-(2019)#tab=summary

https://www.hollywoodreporter.com/movies/movie-news/lion-king-virtual-production-could-be-a-game-changer-filmmaking-1224990/

https://www.omelete.com.br/disney/disney-retira-aviso-em-filmes-e-altera-politicas-de-diversidade