Que liberdade é esta que celebra Abril com fogo?

Há uma pergunta que se impõe, devagar, sem medo da resposta: que liberdade é esta que nos pedem para celebrar?

Dizem-nos para festejar Abril. Dizem-nos para pôr cravos na lapela, para repetir palavras antigas ( povo, democracia, liberdade) como se bastasse pronunciá-las para que ainda tivessem corpo. Mas há palavras que se gastam quando são usadas para esconder a realidade. E a realidade, em Portugal, é muitas vezes mais brutal do que qualquer discurso.

Uma mulher que vai parir não devia encontrar uma porta fechada. Nenhuma mulher devia chegar ao momento mais vulnerável da sua vida e perceber que o Estado chegou tarde, ou não chegou de todo. Quando uma criança nasce no limiar, à entrada, antes da assistência, antes da dignidade, antes da resposta pública, nasce também uma acusação. Nasce uma metáfora terrível de país: Portugal explicado numa soleira. A vida aparece onde a dignidade ficou do lado de fora.

E, ainda assim, pedem-nos que celebremos.

Celebremos o quê? A liberdade de protestar apenas quando o protesto é conveniente? A liberdade de falar apenas quando a frase cabe na cartilha certa? A liberdade de existir politicamente apenas se a nossa dor vier acompanhada da legenda ideológica aprovada?

Subir a um palco para dizer que nenhuma mulher devia ficar sozinha depois de um aborto não devia ser uma provocação. Devia ser uma evidência humana. Nenhuma mulher, tenha decidido o que decidiu, tenha vivido o que viveu, devia ser abandonada. Mas, em Portugal, até a compaixão parece precisar de licença partidária.

E a resposta foi fogo.

Na Marcha pela Vida, o cocktail molotov tornou-se uma espécie de argumento final de quem já não quer discutir. Fogo como pontuação política. Fogo como aviso. Fogo para ensinar à palavra o seu lugar: abaixo, calada, domesticada. Eis a bela liberdade de alguns: tão comovida com os cravos de Abril e tão disponível para acender pavios quando alguém discorda.

Depois vêm os mesmos explicar-nos democracia. Explicam-nos que o voto é livre, desde que se vote bem. Que a participação cívica é nobre, desde que sirva a causa certa. Que o povo é soberano, salvo quando o povo escolhe mal. Nesse momento, o povo deixa de ser povo e passa a ser ameaça, ignorância, atraso, fascismo.

“Fascista” tornou-se a palavra que dispensa pensamento. Atira-se como uma pedra. Serve para interromper, para humilhar, para encerrar processos antes de qualquer julgamento. Quem pergunta é fascista. Quem discorda é fascista. Quem não aceita o entusiasmo obrigatório é fascista. Quem olha para o fogo e se recusa a chamar-lhe festa é fascista.

E depois há Coimbra.

A “queima do facho”, apresentada como celebração do 25 de Abril, é talvez uma das imagens mais reveladoras deste tempo. Gente a rir, a filmar, a aplaudir a queima simbólica do outro, convencida de que a liberdade se purifica com cinza. Como se Abril fosse uma fogueira moral onde se atiram os nomes, os rostos e as escolhas de quem não pertence à tribo certa. Como se o ódio, quando vem embrulhado na bandeira certa, deixasse de ser ódio.

Não deixa.

Pouco importa se vem da esquerda ou da direita. Pouco importa a cor do cartaz, da bandeira ou do punho erguido. Quando a política precisa de fogo para se sentir viva, já perdeu qualquer superioridade moral. Quando a liberdade precisa de bonecos queimados, adversários desumanizados e insultos automáticos, já deixou de ser liberdade e passou a ser licença para perseguir.

O 25 de Abril não pode ser transformado num álibi para novos inquisidores. Não pode ser uma data usada para distribuir certificados de cidadania. Não pode servir para dividir portugueses entre os que têm direito à palavra e os que devem ser reduzidos ao silêncio. Abril, se ainda significa alguma coisa, tem de significar precisamente o contrário: a possibilidade de falar sem medo, votar sem vergonha imposta, discordar sem ser queimado em efígie ou ameaçado em praça pública.

Quero uma liberdade maior do que esta. Uma liberdade adulta, larga, exigente. Uma liberdade que não precisa de cocktails molotov para responder a ideias. Uma liberdade que não precisa de queimar fachos em Coimbra para se sentir revolucionária. Uma liberdade que não confunda democracia com unanimidade, nem povo com plateia obediente.

Essa liberdade, sim, merecia celebração.

Mas esta, esta liberdade que me pede aplauso enquanto me chama fascista; esta liberdade que abre urnas mas fecha bocas; esta liberdade que fala de Abril com uma mão no cravo e outra no fósforo, essa merece ser interrogada.

Que liberdade é esta que só me aceita quando eu deixo de ser livre?