A má gestão é o cancro silencioso do SNS
Durante anos repetiu-se que o SNS está mal porque “não há dinheiro”. É a desculpa perfeita: simples, emocional e conveniente. O problema é que não é verdade. O dinheiro existe. O que falha é tudo o resto.
Quem conhece o sistema por dentro sabe que a saúde pública em Portugal não está a ser estrangulada por falta de recursos, mas por má gestão crónica, incentivos perversos e uma cultura instalada onde quase ninguém responde por nada. Programas que nasceram para resolver problemas reais, como o SIGIC, acabaram transformados em terrenos férteis para abusos, opacidade e pagamentos inflacionados.
O discurso oficial insiste que estes mecanismos servem para reduzir listas de espera. Na prática, o que muitas vezes se vê é produção orientada ao incentivo financeiro, equipas montadas para maximizar ganhos e prioridades clínicas ajustadas ao que paga mais. Isto não é um desvio pontual. É um problema de modelo, tolerado por chefias, administrações e estruturas que preferem não mexer no que já funciona bem para alguns.
Ao mesmo tempo, continuam a circular milhões em ajustes directos, sistemas informáticos inúteis, consultorias sem impacto e fundos públicos sem avaliação séria de resultados. Chamam-lhes “fundos perdidos”. Na saúde, raramente se perdem. Mudam apenas de bolso.
O SNS tornou-se profundamente injusto por dentro. Profissionais que trabalham com ética, cumprem regras e recusam esquemas ficam para trás. Quem aprende a explorar o sistema sobe, recebe mais e ainda é protegido pelo silêncio institucional. Não é falta de dinheiro. É falta de coragem para cortar, auditar e responsabilizar.
E mesmo quando há auditorias, elas chegam quase sempre avisadas. Chefias sabem, serviços preparam-se, processos são maquilhados e tudo aparece “em ordem” no dia da visita. É o equivalente a um restaurante ser informado pela ASAE do dia exacto da inspeção. O resultado é previsível. Não se fiscaliza a sério, protege-se a instituição, evita-se o conflito e empurra-se o problema para a frente.
Falar de corrupção e má gestão na saúde não é atacar o SNS. É defendê-lo. O verdadeiro ataque é fingir que nada disto existe enquanto se pede sacrifícios aos mesmos de sempre e se normaliza o inaceitável.
Sem auditorias independentes, fiscalização surpresa, transparência real e consequências concretas, o SNS continuará a ser um sistema público capturado por interesses internos. E o país continuará a repetir a mentira confortável de que o problema é a falta de recursos, quando o problema é, há muito, moral, estrutural e político.