De Gaza a Leiria: Onde termina a empatia da Esquerda?

Houve um tempo em que a esquerda portuguesa parecia não ter outro assunto. As imagens daquela "Flotilha Solidária", com os seus barcos imponentes e discursos inflamados sobre a libertação de povos distantes, ocupavam todos os ecrãs e debates. Foi um evento que alimentou o ego de muita gente, mas que hoje, visto à distância, parece ter sido apenas um episódio de um ativismo de temporada. O problema é que, enquanto essa esquerda ainda vive dos louros dessa "epopeia" de há muito tempo, Leiria está hoje debaixo de água.

O Presente de Lama vs. O Passado de Glória

Hoje, a urgência não está no mar Mediterrâneo; está nas ruas de Leiria. As enchentes que devastam a cidade agora não são uma memória distante, são um presente de lama, prejuízos e desespero. Comércios familiares estão a ser engolidos pela água, casas estão a ficar inabitáveis e o património de uma vida está a ir rio abaixo.

Onde está agora aquela capacidade de mobilização logística que vimos na época da flotilha? Onde estão as redes de apoio, os fundos de emergência e os milhares de voluntários prontos a "invadir" Leiria para ajudar a salvar o que resta? Parece que a empatia da esquerda tem um prazo de validade e uma bússola muito específica: mobiliza-se pelo que foi épico no passado, mas ignora o que é trágico no presente.

A Invisibilidade do Próximo

A imagem que ilustra esta reflexão nunca foi tão atual. O homem que segura o rosto continua a pensar naquela flotilha de outrora, perdido numa nostalgia ideológica, enquanto ignora a figura ao seu lado que carrega o peso da realidade. Em Leiria, as pessoas não precisam de manifestos políticos escritos em gabinetes de Lisboa; precisam de braços para carregar móveis, de pressão política para obras de escoamento e de solidariedade real.

É mais fácil celebrar o aniversário de uma missão humanitária internacional do que meter as galochas e ir para o terreno em Leiria. Ajudar as vítimas das cheias hoje não dá o mesmo "brilho" revolucionário. Não há bandeiras exóticas, apenas vizinhos em dificuldades. E é precisamente aqui que a empatia seletiva falha: ela prefere a ficção do herói distante à utilidade do vizinho presente.

Conclusão: O Naufrágio da Coerência

A incoerência é gritante. Se a esquerda teve, no passado, engenho para organizar barcos e atravessar oceanos, como é que hoje não consegue lançar uma mobilização nacional para ajudar Leiria a recuperar das enchentes?

A solidariedade que vive apenas de recordações internacionais enquanto ignora a lama à porta de casa não é humanismo — é distração. Enquanto a esquerda continuar a olhar para o horizonte à procura de causas que fiquem bem na fotografia, continuará a passar ao lado do povo que diz representar. Leiria está a afogar-se hoje, e o silêncio de quem tanto falou em "solidariedade" no passado é o barulho mais ensurdecedor desta cheia.