Laicismo: realidade ou mito?
Crê-se que os Estados modernos são laicos, ou seja, separados da religião. No entanto, será mesmo assim, ou terá sido a Santa Religião Católica substituída por uma outra?
Durante séculos, os Estados e Governos (Ocidentais, pelo menos) submeteram-se a Cristo na forma da Sua Igreja e do Seu Vigário. De um momento para o outro, tudo mudou, e deu-se a ruptura mais prejudicial da História da Civilização, de seu nome laicismo.
Também apelidado de secularismo francês, o laicismo é um princípio político que rejeita a influência da Igreja na esfera pública do Estado, considerando que os assuntos religiosos devem pertencer somente à esfera privada. Portanto, crê-se que Estado e Igreja são duas entidades diferentes: uma responsável por legislar, a outra para “determinar” como os crentes — e apenas os crentes — devem viver.
Haverá uma ideia mais descabida que esta?
Um Estado, per si, não tem qualquer autoridade, já que existe única e exclusivamente para orientar os respectivos povos para Deus: Não terias nenhuma autoridade sobre mim se esta não te fosse dada pelo Alto. (Jo 19,11)
É Cristo, através dos governantes de cada País, quem deve legislar, ditar o que ‘pode’ e ‘não pode’, bem como encaminhar o futuro de cada povo. Ao pretender separar o inseparável, causa-se uma ruptura sem precedentes históricos, a qual se tem mostrado altamente prejudicial, tendo criado a geração mais assassina, inerte, apóstata e descrente desde que há registo da Criação.
Excluiu-se Deus e Jesus Cristo da legislação e do governo e foi colocada no homem, e não em Deus, a origem de toda autoridade; por isso as leis perderam a garantia das verdadeiras e imperecíveis sanções e ficaram desligadas dos princípios soberanos do direito, cuja única fonte, segundo os próprios filósofos pagãos, como por exemplo Cícero, era a lei eterna de Deus. Os fundamentos da autoridade desapareceram ao suprimir-se a razão fundamental do direito do governante a mandar e a obrigação dos governados de obedecer. A consequência inevitável foi o cataclismo de toda a sociedade humana, carente de toda base e defesa sólida, e convertida assim em presa das facções políticas que lutam pelo poder, e que procurar os seus próprios interesses e não os interesses da pátria. — Sua Santidade Pio XI, Encíclica Ubi Arcano
Numa perspectiva social, o laicismo é como um cancro que se espalha por toda a Nação, corrompendo os seus integrantes e deixando-os à deriva, sem propósito nem obrigações para com o meio no qual se inserem. Se o dever do Estado é garantir a Salvação das almas, nunca pode permitir que cada indivíduo aja por si mesmo, mediante a sua consciência e os respectivos impulsos. E isto porquê?! Porque desde o pecado original que toda a espécie humana está condenada a perecer, alvo dos seus apetites insaciáveis e atitudes depravadas que, quando não travados, são altamente destrutivos — tanto para o próprio como para o próximo.
Tudo o que seja contrário à Lei de Deus tem de ser punido pelo Estado. No entanto, como se consegue tal coisa se este mesmo Estado se sobrepõe ao Criador e Orientador de todas as coisas?
Vejamos o que diz SS Pio XI sobre a questão:
Começou-se, primeiro, a negar a soberania de Cristo sobre todas as nações; negou-se, portanto, à Igreja o direito de doutrinar o género humano, de legislar e reger os povos em ordem à eterna bem-aventurança. Aos poucos, foi equiparada a religião de Cristo aos falsos cultos e indecorosamente rebaixada ao mesmo nível. Sujeitaram-na, em seguida, à autoridade civil, entregando-a, por assim dizer, ao capricho de príncipes e governos. Houve até quem pretendesse substituir à religião de Cristo um simples sentimento de religiosidade natural. Certos estados, por fim, julgaram poder dispensar-se do próprio Deus e fizeram consistir a sua religião na irreligião e no esquecimento consciente e voluntário de Deus. — Encíclica Quas Primas
Neste magnífico documento, responsável pela instituição da Festa de Cristo Rei, o Sumo Pontífice dedica uma parte do seu tempo e atenção à condenação do laicismo, de modo a enaltecer que, sim, o Reinado de Cristo não é deste mundo, mas é neste mundo que tem de começar por ser aplicado, de modo a garantir que nós, miseráveis pecadores, ambicionamos o Reino Eterno.
O que aconteceu, com particular força e amplitude durante o séc. XX, foi que as massas começaram a ser doutrinadas para odiar a Igreja, numa campanha marcada por falsos testemunhos e constante incentivo a repudiar a Doutrina Social de Nosso Senhor — algo inconcebível em qualquer período histórico, visto que a educação pertencia às grandes Ordens, como a Companhia de Jesus e os Salesianos.
Constatamos que laicismo é particularmente visível na educação e na vida familiar, sendo estes sectores os mais prejudicados com a forçada separação entre o Estado e a Igreja. Infelizmente, as famílias seguiram o caminho destes mesmos estados, e, como tal, o desprezo pela educação religiosa, pela moral e pela Sã Doutrina aumentou exponencialmente, já que com o laicismo se perde por completo a orientação vertical (para Deus).
Os frutos?!
A Educação
Talvez o ponto determinante seja precisamente este, pois é o sector da sociedade no qual estes interesses demoníacos mais claramente se observam.
Frequentemente diabolizadas, as organizações e estruturas educacionais do séc. XX (como a Mocidade Portuguesa) não foram mais opressoras ou doutrinárias que o actual sistema de ensino. Aparentando — e sob pretexto, claro — ser imparcial, o corrente sistema (que tem por base a Revolução Francesa, diga-se de passagem) não é mais do que uma fábrica de ideais revolucionários e sanguinários perfilados naqueles mesmos indivíduos que promovem “paz e amor”.
Aquilo que víamos nas organizações supramencionadas não era mais do que a base da educação masculina: disciplina, autoridade, obediência. Foi, pode-se dizer, a última esperança de termos um sistema educacional bem sustentado e com potencial para fazer a Nação prosperar.
Actualmente, o espírito revolucionário apoderou-se de tal modo das massas jovens, que a vasta maioria de Católicos se dizem favoráveis a este erro crasso que é o laicismo.
Meditemos, novamente, nas sábias palavras do Sumo Pontífice:
Enfim, excluiu-se Deus e Cristo da educação da juventude, e a consequência inevitável foi não já a mera ausência da religião nas escolas, mas a guerra, aberta ou velada, contra a religião no ensino e a convicção das crianças da nula ou escassa importância daqueles princípios que se deve ter para viver rectamente, guardando sobre eles um absoluto silêncio ou fazendo deles objecto de explicações saturadas de desprezo. E assim, com o desterro de Deus, da sua lei e de seu ensinamento, já não há possibilidade de educar as almas infantis para evitarem o mal e levar uma vida virtuosa, nem de proporcionar à família e à sociedade homens sóbrios, rectos, amantes da ordem e da paz, idóneos e capazes de contribuir para a prosperidade pública. — Encíclica Ubi Arcano
Com a constante formatação do pensamento, perde-se espaço para a expansão das aptidões e capacidades intelectuais. Defendemos a necessidade de existir um ensino diversificado, com disciplinas adequadas a cada sexo, e, claro está, nada de ensino misto. Falamos desta questão porque entendemos que só é possível alcançar tal fim com a participação da Igreja na legislação das Nações, já que a opinião popular se afastou por completo de tal possibilidade.
Para mais informação a respeito destes e doutros pontos, ouvir AQUI
“A Deus o que é de Deus; a César o que é de César”
Este ensinamento de Cristo tem sido altamente deturpado e erroneamente aplicado pelos meios Conciliares, os quais pretendem, claro, legitimar o modernismo e os seus pilares — laicismo e ecumenismo.
Entender que um assunto como o assassinato de bebés no ventre materno é “de César” e não de Deus — que veementemente o condena e pune — é um disparate que apenas a corja liberal poderia tomar como verdade absoluta. Nunca se viu um país ser legislado com base nas crenças próprias de um indivíduo. Esta realidade moderna é altamente perigosa e contraproducente, uma vez que deixa uma Nação completamente à deriva, sem uma base sólida, já que cada Governante tomará as medidas que bem entender num curto espaço de tempo. Sim, é sabido que as elites políticas servem interesses semelhantes, independentemente das cores que representam publicamente, mas, ainda assim, é completamente descabido termos Governos a ser alterados — e pior, votados — de 4 em 4 anos. Mais, o laicismo não permite a sustentabilidade nem a criação de um caminho comum que certo e determinado povo possa percorrer no decorrer da sua peregrinação terrena. Este será constantemente alvo de mudanças drásticas e repentinas às mãos da loucura dos homens, guiados pelas suas paixões e interesses.
O foco da Igreja, como instituição perene fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo, é precisamente o contrário do que o laicismo veio trazer. Desde 33 A.D. que os valores são os mesmos, as crenças são as mesmas, a actuação é a mesma, a base é a mesma — tudo permanece, independentemente do que certo Papa deseje para si. Porquê!? Porque a missão de guiar as almas a Deus implica perseverança e constância.O mesmo pode ser dito a respeito do “casamento” sodomita: para chegarmos ao ponto em que consideramos normal tamanha aberração, tivemos de, primeiramente, vulgarizar um Sacramento (Matrimónio), reduzindo-o a um mero contracto sem significado que a qualquer momento pode ser rasgado.
Rejeitou-se igualmente o direito de Deus, o direito de Jesus Cristo de presidir a origem da família, reduzindo o Matrimónio a um mero contracto civil, que Jesus Cristo havia feito sacramentum magnum [Ef. 5, 32] e que havia querido que ele fosse figura, santa e santificante, do vínculo indissolúvel que O une com a Sua Igreja. E assim presenciamos o obscurecimento crescente e a debilitação progressiva no povo da ideia e do significado que a Igreja havia infundido no gérmen primeiro da sociedade, que é a família; o desaparecimento da hierarquia e da paz domésticas; a perda cada dia maior da união e estabilidade familiares; a frequente violação da santidade do Matrimónio, causada pelo fervor dos baixos apetites e pelo anseio mortal de vis interesses, que trazem consigo o envenenamento das fontes mesmas da vida familiar e nacional. — Encíclica Ubi Arcano
Dando seguimento às sábias palavras de Sua Santidade Pio XI, vemos como nem o casamento é de César, mas sim do mesmo Deus que nos criou e redimiu com o Seu Preciosíssimo Sangue.
Quando alguém se coloca numa posição de separar a Santa Igreja do encaminhamento das almas, é sabido que tem interesses obscuros por trás.
O VEREDICTO
Portanto, temos encaminhado esta breve exortação na mesma direcção que os Santos Padres seguiram: condenação claríssima e firme do laicismo.
No entanto, coloca-se uma outra questão (que é precisamente a que nos moveu a escolher o título para este artigo): será o Estado verdadeiramente laico?
A resposta é simples e directa: não.
O que se deu, na realidade, foi uma ruptura com a Cristandade. É sabido que nem os aztecas nem os celtas tinham um modelo governativo afastado da espiritualidade. Por que motivo iriam os Estados modernos inovar nesse sentido?
Ao termos em consideração o rumo dos Estados modernos, vemos que têm os seus próprios dogmas:
morte (em vez da inviolabilidade da vida);
adultério (em oposição à indissolubilidade do Matrimónio);
poligamia (em oposição à fidelidade monogâmica);
multiculturalismo (destructivo quando comparado à manutenção da cultura de cada Nação);
miscigenação (contrária à preservação dos povos);
Etc.
Com a adopção deste leque de “valores” completamente opostos àquilo que sempre se defendeu, a ruptura foi ainda mais significativa do que se fosse somente como os modernistas a mencionam, quando citam, incorrectamente, SS Pio XII: “A sã laicidade do Estado”.
Nada do que esteja relacinado com laicismo é são, pelo contrário. Foi o golpe fatal na posição, importância e presença da Santa Igreja na esfera pública, numa claríssima vitória para a maçonaria e os mais diversos opositores da Fé Verdadeira. Arrepia-nos profundamente ver (ditos) Católicos abraçar tal posição e considerá-la digna, mesmo vendo que foi a responsável pela Grande Apostasia que hoje vivemos.
Portanto, está claro qual a religião do Estado: ________.
Deixamos em aberto para que tomem a iniciativa de completar, obviamente!
Entendemos, por fim, que qualquer Estado que não tenha conexão espiritual está condenado a falhar, pelo que terá sempre de servir um mestre que não é deste mundo. Nós, Católicos, queremos, exigimos e lutaremos por ter Cristo no centro; vós, Estados modernos, entretenham-se com Satanás enquanto Deus vo-lo permite.
Sabemos que a crise actual é de uma gravidade imensa, pelo que somos chamados por Cristo a prestar este serviço que humildemente cremos ser de auxílio ao bom viver. Desejamos, igualmente, ser claros no encaminhamento das almas, dentro das nossas imperfeições e incapacidades, para que possam compreender que é imperativo rejeitar a separação da Igreja do Estado.
Viva Cristo Rei e Maria Santíssima, Sua Mãe!!
A.M.D.G.