Memorial de uma Entrega Silenciosa

@Rui Carvalho


Minha cara,

Escrevo-te não para pedir, mas para declarar o inventário do que guardo. Aprendi, a duras penas e com o passar das horas, que a felicidade e o amor partilham a mesma natureza errante: não são tesouros que se enterram num cofre, mas instantes que se respiram e, logo depois, se tornam eternos na memória.

Não te dou o meu amor como quem entrega um objeto; troco-o pelo simples privilégio de te ver existir. Porque amar, descobri eu, não é uma experiência que se consome, é o eco de tudo o que recordamos com o peito a arder. Por isso, escolhi fazer de ti a minha lembrança mais constante.

Dizem que não há felicidade que dure para sempre. Talvez tenham razão. Mas há momentos contigo que, de tão vivos, anulam qualquer contagem de tempo. Saber o que se quer, e querer-te com esta paixão que me transborda, é a única forma de me sentir, finalmente, realizado.

A suprema ventura desta vida, a única que realmente importa, é a convicção de que somos capazes de amar. E enquanto este meu sentimento caminhar na tua direção, peço apenas que sintas nele uma certeza inabalável: a de que te amo profundamente.